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Sociedade

Naufraga do Vicente quer voltar ao mar volvidos dois meses do afundamento do navio

“Tudo quanto quero é regressar ao mar, é trabalhar no mar, gosto do mar, é uma paixão”, diz Ducha, sobrevivente do navio Vicente, que a 08 de Janeiro se afundou a poucas milhas do porto da ilha do Fogo.
Maria da Luz Duarte Pires, Ducha como é conhecida, 44 anos, mãe de um filho de 28, esteve 18 horas no mar, mais outros ocupantes do navio, agarrados a uma palete.
A tormenta por que passou não a impede de repetir, vezes sem conta: “Quero o mar. Este é o meu problema. Gosto daquilo, é simples. Minha cura está no mar”.
Ducha encontrava-se no navio, onde sua missão era cuidar dos passageiros, desde Dezembro de 2014. Sem contrato de trabalho assinado e sem seguro. Como é possível esta situação? “Pergunte ao IMP (Instituto Marítimo Portuário)”, responde, simplesmente.
Era a primeira viagem que Ducha fazia à ilha do Fogo.
O navio fazia o trajecto São Vicente/ilha do Sal/Praia/Fogo. Entre ilha do Sal e Praia o motor do Vicente “parou duas vezes, mas arrancou logo”, afirma Ducha. Na Cidade da Praia, de onde saiu ao meio-dia rumo à ilha do Fogo, fizeram reparação, “remendaram”.
Logo à saída, o navio “tombou, mas nada de extraordinário”.
Às 19:00 de 08 de Janeiro, segundo Ducha, Vicente aproximava-se do porto de Vale dos Cavaleiros, na ilha do Fogo, onde se encontrava atracado o navio Ostreia, da Vivo Energy.
Tornou-se então necessário que Vicente aguardasse ao largo que Ostreia deixasse o porto. O mar, entretanto começou a ficar “grosso, grosso, com corrente muito forte, Navio começou a descair”.
A bordo, 26 ocupantes, oito dos quais passageiros. Doze continuam desaparecidos, dois meses depois do naufrágio.
Com o navio a descair, o pânico instalou-se. Na copa, tudo quanto se encontrava de pé, caiu. Garrafas, chávenas, máquina de café. Já eram 20:15. Noite escura e fria.
“Deitei-me no chão, rastejei até ao meu camarote, vesti o colete salva-vidas”, diz Ducha.
Entretanto sobe da casa de máquina um seu colega já “todo ferido”. “Todo mundo a gritar”. Escuridão total.
“Pensei em Deus. Disse um grande foco. Não tive medo. Pedi ao astral superior que me ajudasse”, afirma Ducha.
“O estado do mar mudou de um momento para o outro. Caí à água. Nem sabia já para que lado ficava o porto. Quando caí havia já muita gente a nadar. Via os coletes. Pai e filho de seis anos vieram a seguir. Havia ondas de 7/8 metros de altura”.
Ducha calcula que foram uns 15 os náufragos que se agarraram a uma palete, mas quando chegou o socorro, no dia 09, por volta das 13:00, já restavam apenas quatro. Os restantes desapareceram. O capitão, o chefe de máquina, o imediato.
Mas sabe Ducha verdadeiramente nadar? Sabe, mas desvaloriza: “Os grandes nadadores ficaram lá”.
Os meios de busca foram accionados. Os navios Ostreia e Kriola, afirma Ducha, passaram por perto, mas não enxergaram os náufragos.
Até que, às 13:00 do dia 09 chegou um navio de pesca, cujo capitão é o norueguês Morton Vicente, a viver na ilha do Fogo.
“Nem queríamos acreditar. O navio apitou, gritámos. Um mergulhador caiu para nos ajudar. O mar estava louco. Não foi fácil”.
O capitão norueguês terá dito à Ducha que ela mais os três companheiros foram resgatados a cinco horas da ilha do Fogo.
Levados para o hospital de São Filipe, onde foram observados, deixaram a ilha do Fogo no dia seguinte, rumo à ilha do Sal, onde pernoitaram.
Na segunda-feira seguinte Ducha chegou à casa, em Chã de Alecrim, em São Vicente, onde aguarda uma oportunidade de regressar ao mar, a favor do qual, apesar de tudo, derrama paixão.
Nascida na localidade de João Afonso, Ribeira Grande, Santo Antão, Ducha viu o mar pela primeira vez já aos 12 anos, no Porto Novo, mas ainda a tempo de por ele se apaixonar.
Fonte: Inforpress

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