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Sociedade

Embaixada da Turquia segue saga de cabo-verdianos “escravizados” 

A Embaixada da Turquia em Dacar já solicitou informações sobre a história dos quatro tripulantes que partiram do Mindelo a bordo do rebocador turco “Sir Michael”, tendo um desaparecido dos olhos dos companheiros a meio da viagem. Entretanto, o agente turco do rebocador garante que estão de regresso a Cabo Verde tanto o marinheiro retido por semanas num estaleiro em Istambul, como também o outro dado como desaparecido pelos companheiros.
Após  ter conhecimento da história dos marinheiros narrada por A NAÇÃO no passado 15 de Janeiro, a Embaixada da Turquia, em Dacar e que cobre Cabo Verde também, quis saber em que circunstância os marinheiros partiram de São Vicente e os contornos da saga desses homens que passaram maus bocados durante a viagem.
Feito o pedido, este jornal retomou a investigação e descobriu em resposta que a uma solicitação da Capitania dos Portos de Barlavento, o agente turco rebocador “Sir Michael”, por nome de Gokhan Kazaz, informou que emitiu na segunda semana do passado mês de Janeiro duas passagens. Uma em nome de João Rocha, que se encontrava nos estaleiros de Istambul, e outra em nome de José Manuel Santos Boaventura, que desapareceu dos olhos dos companheiros no largo da Tunísia quando o Sir Michael teve problemas com dois tankers que rebocava.
A cópia da passagens a que o A NAÇÃO teve acesso indica que os dois marinheiros deixaram Istambul no dia 11 de Janeiro, via Casablanca (Marrocos), com destino à ilha de São Vicente, passando antes pela Cidade da Praia. O jornal não pôde contudo apurar se os dois tripulantes cabo-verdianos fizeram ou não o percurso como programado, mas o certo é que tanto um familiar de João Rocha como um agente da Polícia Marítima confirmam que ambos já estão de regresso a São Vicente, depois da saga que se iniciou no passado 26 de Setembro de 2014.
Saga
Foram quatro contratados em São Vicente – Ailton Neves, Victor (este natural da Guiné Bissau), José Boaventura e João Rocha – por agentes turcos para levar o rebocador Sir Michael para a Turquia. Partiram do Porto Grande mas desviaram a rota para Nigéria e Gana, onde rebocaram dois tankers e rumaram de seguida para a Europa.
Conta o jovem Ailton, um dos dois que regressaram a Cabo Verde no início de Janeiro após pedir ajuda à polícia turca, que tiveram muitos problemas na viagem, perderam um dos tankers devido ao mau tempo e passaram 10 dias a tentar recuperá-lo.
“Fomos obrigados a fazer manobras perigosas e depois de algum tempo disseram-nos que um rebocador italiano tentaria recuperar o tanker e nós seguiríamos viagem. Mas o nosso companheiro José Boaventura, mais conhecido por Naiss Expediente, ficou supostamente a ajudar no rebocador italiano”, narrava ao jornal o jovem de 28 anos, que desembarcara do navio Vicente no verão passado para entrar nesta aventura turca.
Chegando ao estaleiro Tersane, em Istambul, depois do rebocador Sir Michael “mudar de bandeira por três vezes” durante a viagem, Ailton, Victor e João Rocha pediram informações de Naiss Expediente aos agentes turcos, mas foi-lhes recusada qualquer notícia. Entretanto, começaram a perceber que teriam dificuldades em sair da Turquia, porque, logo assim que chegaram ao destino, o capitão do rebocador desapareceu do mapa e tiveram os seus documentos, cédula e passaporte retidos.
Dias difíceis
Os marítimos cabo-verdianos e o guineense passaram dias em Tersane a pão e sumo, até pedirem ajuda a um conhecido turco para entrar em contacto com a polícia do distrito de Tuzla. Só após a pressão da polícia, Ailton e Victor conseguiram recuperar os documentos e regressaram a Cabo Verde, com vida, no passado 7 de Janeiro. Para trás deixaram João Rocha, de 62 anos, que entretanto já retornou também ao país depois de passar mais uns dias em Istambul.
Ailton conta que chegou a trabalhar 14 horas seguidas sem descanso durante a primeira semana. Teve de reclamar ao comandante e só depois passou a trabalhar menos. Ainda fizeram muitas horas extraordinárias quando perderam o tanker, mas os agentes não lhes pagaram os extras. Portanto, uma autêntica escravatura.
Sobreviventes de dias difíceis, assim que chegaram a São Vicente, Ailton e Victor deram o caso a conhecer às autoridades marítimas. Logo que soube do caso, o capitão dos Portos de Barlavento, António Duarte Monteiro, entrou em contacto com pessoa que agenciou o rebocador em São Vicente e na sequência trocou mensagens com o agente na Turquia. Dias depois recebeu a cópia do bilhete de passagem dos marinheiros que vieram na primeira viagem.
A Capitania dos Portos de Barlavento garante que se fez de tudo para esclarecer o caso. Mas alerta que os marítimos devem contactar as autoridades marítimas cabo-verdianas antes de assinarem qualquer contrato para trabalharem no estrangeiro porque podem cair em enrascadas como a dos tripulantes, que regressaram a casa só depois da intervenção da polícia turca, como contam. Seria mais fácil seguir-lhes o rasto se os contratados tivessem, antes da viagem, passado pelas mãos das autoridades em São Vicente.
Sorte é que desta vez o agente que tratou da saída do Sir Michel do Porto Grande, onde se encontrava fundeado há anos, forneceu à Capitania informações que facilitaram o contacto com agentes na Turquia. Caso contrário, tudo poderia tornar-se mais complexo. Ainda assim, a Embaixada da Turquia em Dacar quer conhecer os meandros dessa história de quatro meses e que deixou marcas nos marítimos. Para a dita representação em causa está a imagem do país junto dos cabo-verdianos e não só já que a história dos cabo-verdianos é hoje conhecida em vários lugares depois do artigo do A NAÇÃO sobre a referida saga.
 
 
 
 
 
 

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